Por Gabriel Rosário

O ator Gabriel Canella é um homem daqueles de parar o trânsito, mas, além de tudo isso, mostra-se como um ser humano livre de preconceitos e focado no seu desenvolvimento artístico e pessoal. O rapaz já gravou um filme com temática sexual e LGBT, o ‘Copa 181’, em que interpreta um garoto de programa que frequenta saunas atrás de clientes e dinheiro. Canella não hesitou e aceitou de cara o papel, que envolveria cena de beijo e sexo com outro homem. O longa estreia ano que vem no Festival de Berlin.EDICAO 12 - MAISJR_web-83

Para a tristeza de alguns, saiba que ele namora e mora junto de uma médica, a qual sente um pouquinho de ciúmes das cantadas dos fãs. O ator ainda falou sobre os planos de formar família, projetos futuros e a expectativa para uma sociedade melhor.

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Como e quando você entrou para o meio artístico?

Como acontece com muitos jovens, comecei pelo tablado, escola que está sempre no meu coração. Depois, me formei como ator profissional na CAL [Casa das Artes de Laranjeiras] e fui convidado para minha primeira novela, pela qual fui finalista do ‘Prêmio Contigo’, como ator revelação. Logo depois, retornei a CAL para me graduar em artes cênicas.

Figuras da televisão já falaram sobre o assédio que sofrem por parte de diretores e superiores no início da carreira. Você já passou por algo desse tipo?

Acho que a minha sólida formação como estudante e o fato de ter sido indicado ao prêmio de ator revelação, logo no inicio da minha carreira, me colocaram numa região mais profissional e, talvez por isso, nunca tenha vivido esse tipo de situação.

 

E como lida com o carinho dos fãs? Alguma vez já passou dos limites?

Acho que ter fãs é fundamental. Acho contraditório um ator trabalhar em televisão e não querer troca com as fãs. Eu encaro isso como meu trabalho e faço isso com carinho. É claro que tem sempre algumas, geralmente mais jovens, que são mas atiradas, mas acho isso perfeitamente normal em função da idade. Minha namorada que tem mais problemas com isso. (risos)

O seu corpo chama a atenção, os homens também falam gracinha?

Sim, isso acontece. Os tempos são outros, onde meninos e meninas tem o direito de expressar o seu desejo. Todos temos que aprender a lidar com a diversidade sexual. Todos temos que aprender a ter gentileza na hora de recusar algo que não combina com a gente.

 

Acredita que ser ruivo, o que é quase que um sorteio genético, te dá um charme a mais?

Ser ruivo é uma faca de dois gumes, algumas pessoas acham charmoso e outras manifestam preconceito. Para mim, isso é um fator secúndario. Minha namorada, por exemplo, adora que eu seja ruivo, mas o meu foco é ser considerado um bom ator pelo meu país. Até pouco tempo não era comum a escalação de um ruivo na televisão e, de certa forma, estou entre os pioneiros.

 

Qual a sua rotina para cuidar do corpo?

Não tenho um corpo construído. Tenho uma enorme facilidade para ganhar massa muscular e faço academia porque acho bacana para saúde, afinal, namoro uma médica. Não fico procurando a beleza do corpo, mas, se ela chega com facilidade, não vejo porque ficar me escondendo.

Tem alguma dica de beleza que é indispensável?

Beijo na boca com paixão.

 

Quantas tatuagem tem e o que significam para você?

Tenho cinco tatuagens e a maioria são frases ou palavras de incentivo à vida.

 

Um dos seus trabalhos, o filme ‘Copa 181’, vem com uma temática forte. Como foi a preparação para o personagem?

Na verdade, aqui no Brasil é que essa temática tem ganhado toda essa dimensão, porque no cinema internacional esse tema é até bastante batido. Até aqui, nos nossos festivais internacionais de cinema, houve sempre uma programação muito grande, onde a temática é a diversidade sexual. Talvez por eu estar numa novela, gênero no qual esses assuntos ainda geram bastante polêmica, esse tema tem estado presente na minha vida desde que gravei o filme. Mas, um filme criado por um dos maiores intelectuais do país, Danon Lacerda, diretor de programação cultural do Banco do Brasil, é um filme de arte.

 

Você ponderou sobre a repercussão que uma cena de beijo e sexo com outro homem pode ter na sua carreira ou já logo aceitou o papel sem importa-se com o pensamento do mercado e público?

Sou formado em Artes Cênicas e aprendi na faculdade a fazer trabalho que tenha conteúdo e acabamento artístico de primeira e não hesitei em nenhum momento. Jamais recusaria um convite desse nível artístico por questão de mercado. Interessante é que, ao invés de me prejudicar no mercado, estou tendo uma visibilidade gigantesca com a somas desses três trabalhos: o filme, a peça ‘Hamlet ou Morte’ e a novela ‘Êta Mundo Bom’. A emissora onde fiz minhas novelas acabou de levar ao ar uma cena de sexo entre homens com grande sucesso de crítica. [referindo-se à cena da novela ‘Liberdade Liberdade’ entre Caio Blat e Ricardo Pereira].

 

Durante seu laboratório para o personagem, visitou saunas. Teve alguma história engraçada enquanto estava no local? Alguém ter chegado com uma proposta mais ousada ou ter te confundindo com um garoto de programa ou até mesmo te reconhecido das telinhas?

Bom, eu chamo um pouquinho de atenção, né? (risos). Então, aconteceu de algumas pessoas, por não saberem que eu estava fazendo laboratório com todo elenco, com indicação do diretor que também estava presente, terem me abordado dizendo que eu era muito bonito. Expliquei com naturalidade o que estava fazendo e eles se sentiram até lisonjeados por estarem sendo representado por cidadãos no cinema.

 

Tinha certo receio de antes de ir ao local?

Sou artista e estudo filosofia há dez anos e não tenho preconceito contra nenhum tipo de manifestação amorosa dos seres humanos. A prostituição é considerada a profissão mais antiga da humanidade e, portanto, não cabe a mim julgá-la. Prostituta e miches geralmente dão grandes prêmios à atores de todo mundo.

 

O que mais te chamou a atenção durante as visitas às saunas?

Tudo me chamou a atenção, porque é um ambiente que não estou acostumado a frequentar. Cada detalhe era uma novidade para mim.

 

Na vida à dois, como seria o relacionamento ideal?

Gosto muito de um livro chamado ‘Amor Companheiro’, que fala da amizade que precisa existir dentro dos relacionamentos mais dourados. Eu namoro há um ano e sei que esse lance da compreensão, da paciência e amizade entre um casal é fundamental. No momento, estou com uma exposição enorme na mídia e isso provoca fortes angústia na minha namorada, por exemplo. Cabe a ela transmitir segurança sobre a sinceridade dos meus sentimentos. Minha dica é essa: nunca feche o diálogo.

 

Pretende formar uma família, com filhos e afins? O que falta para isso?

O mundo está muito complexo, eu já passo a maior parte do meu tempo morando com minha namorada, mas o projeto de ter filhos tem que ser muito bem pensado. É preciso que eu esteja com bastante tempo disponível para dar atenção aos meus filhos e lutar pela felicidade deles nesse tempo tão individualista e violento.

 

Chegando perto dos trinta anos, o que ainda falta conquistar em sua vida?

Estou num momento particularmente feliz e muito satisfeito com as coisas que conquistei. Tenho um relacionamento estável, estou numa novela de grande sucesso e numa peça de teatro em cartaz há um ano e meio. Mas, sabe como é? O artista tem essa vocação para engolir o mundo e já estou produzindo um projeto que vai ser dirigido pelo grande diretor Ulysses Cruz. Não é um projeto pequeno, porque o texto é de Walcyr Carrasco, portanto, já arrumei um desafio para o próximo ano.

Curiosidades

 O preconceito é…

Preconceito é burro.

Sexo na sua vida é…

Sexo é natural.

Já posou ou posaria nu?

Nunca posei nu e não gosto do termo posar, mas, se tivesse que interpretar um personagem com cenas de nudez em uma obra de qualidade artística, faria numa boa.

Parte do corpo que mais gosta?

Os olhos porque é o espelho da alma.

Sonho a ser realizado ?

Ver o fim da desigualdade social.

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