Quando criança, a cada vez que José Bernardo trocava o vestido pela bermuda e saía para brincar na vizinhança, sua mãe, a investigadora de polícia paraense Norma Coeli, ouvia do então marido: ‘Como você deixa a Letícia andar assim? Ela está parecendo um homenzinho”.

José Bernardo, hoje com 18 anos, foi batizado de Letícia. Mas nunca se identificou com atividades que os outros diziam ser “de meninas”. Preferia o cabelo curto aos longos cachos. Os esportes com bola às bonecas. E detestava as aulas de balé.

Já adolescente, disse à mãe que era lésbica. E, pouco tempo depois, tomou coragem para se afirmar como transgênero (quando a pessoa não se identifica com o gênero designado no nascimento).

A aceitação dos pais, no entanto, não foi imediata.

“Sempre soube que meu filho não era uma menininha. Mas escondi isso de mim mesma o quanto pude”, conta Norma em entrevista por telefone à BBC Brasil.

“Na verdade, eu apenas torturei minha “garotinha” por anos a fio! Essa é a mais pura verdade”, acrescenta.

Em um post emocionado publicado em sua página pessoal no Facebook na quarta-feira passada, Norma desabafou sobre como enfrentou o próprio preconceito para aceitar o filho. O relato, que veio acompanhado de uma foto da carteira de identidade social de José Bernardo, rapidamente viralizou nas redes sociais, com milhares de curtidas e compartilhamentos.

“Foi libertador para nós dois. Sempre fui seu ombro amigo. Ouvia suas angústias e seus problemas. Mas eu tinha medo do que podia acontecer com ele. E talvez isso explique por que eu custava tanto a aceitar que meu filho era diferente dos outros”, assinala.

“Meu ex-marido (Norma separou-se há três anos depois de permanecer quase duas décadas casada) e o irmão dele, mais velho, também o apoiaram bastante. Somos bastante unidos e uma família feliz. Aqui não existe preconceito”, acrescenta.

No post, Norma discorre sobre a “tortura” contra o filho.

“Muitos lacinhos, babados, bonecas e afins! Depois aulas de balé pra aprender a ser “mocinha”… Daí vieram as sapatilhas, frufrus e o lindo mundo cor-de-rosa!!!”, escreveu.

“E, por alguns anos, eu também acreditei no meu próprio “mundinho mágico” e achei que tudo era imaginação boba de mãe. Mas não era”, acrescentou.

Norma ainda escreveu um relato comovente sobre a aceitação do filho. A postagem foi denunciada, saiu do ar, mas logo voltou.

 

Reprodução/Facebook

 

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