O Caleidos Cia. de Dança vai apresentar, de 7 a 16 de outubro, em sua sede na Lapa, o espetáculo “Mairto” que discute, por meio da dança e da poesia, a violência contra homossexuais na cultura do homem. O espetáculo faz parte de uma mostra de espetáculos em São Paulo dentro do projeto “Lapa, eu vou a pé”, que pretende levar aos moradores da capital cinco espetáculos, sendo três remontagens do repertório da companhia e dois inéditos, totalizando 30 apresentações, todas elas gratuitas.

A mostra é uma das ações públicas que visa construir uma teia de relações cidadãs que permita a aproximação do público local e o conhecimento mútuo dos diversos produtores de cultura da Lapa (núcleos artísticos, cias. de teatro, escolas, bibliotecas dançaetc.) fortalecendo, por meio da arte, as redes de pertencimento ao espaço urbano, ao bairro e à cidade como um todo.

A Mostra Caleidos 20 anos prevê apresentações gratuitas de cinco espetáculos do Caleidos até o final do ano, três remontagens de espetáculos que compõem a história
da companhia e dois espetáculos inéditos. No total, serão 30 apresentações gratuitas, com público estimado de 1.500 pessoas.

 

MAIRTO

Concebido em 2015, o espetáculo “Mairto” nasceu a partir da leitura de uma notícia de jornal sobre o assassinato de um homossexual. A notícia se desdobrou em cenas de dança que remetem aos eventos de boxe e MMA. As cenas, divididas como se fossem rounds de uma luta, são jogos dança que dialogam com a poesia propondo diversas leituras e interpretações do crime.

“Mairto” é o primeiro resultado do Projeto Rosa Azul, que ocupou papel central nos processos de pesquisa do Caleidos Cia durante todo o ano de 2014. O foco de Rosa Azul é a questão da violência na cultura do macho e os espetáculos ligados a esse projeto tematizam os principais alvos dessa violência: homossexuais, mulheres e crianças. “Sobretudo, o objeto da violência na cultura do macho são os afetos, a sensibilidade, a compaixão e os sentimentos de solidariedade. Os portadores desses afetos são as vítimas mulheres, crianças, homoafetivos, homens menos agressivos – mas a cultura do macho se projeta especificamente contra os afetos, são eles que ofendem o verdadeiro e perigoso macho” – explica o poeta Fábio Brazil que assina a dramaturgia do espetáculo.

A partir da leitura da notícia, foram construídos os poemas que são declamados durante as cenas. “Não seria nem possível, nem desejável mergulhar nessa dramaturgia a partir de uma perspectiva narrativa, para isso já temos a notícia do jornal. Foi preciso pensar nas relações entre os algozes e a vítima, entender os jogos de poder ali estabelecidos e transformá-los em jogos de dança, jogos baseados na linguagem da dança; daí nasceu a dança que se vê em cena”, relata Isabel Marques, que assina a direção de “Mairto”.

Como em outros espetáculos do Caleidos Cia de Dança, “Mairto” se instala na interface entre a poesia e a dança. Poemas são declamados ao vivo, dialogando com a música e as cenas de dança que se constroem ao vivo a partir dos jogos de improvisação. A encenação geral remete às lutas esportivas – boxe e MMA – aos eventos que fazem da violência um entretenimento e um esporte.  “Foi uma escolha focada na plasticidade, > dramaticidade e corporeidade envolvidas nesses eventos, além disso, a relação deles com a cultura do macho é inequívoca, e isso pode convidar o público a participar e refletir sobre a questão da violência contra os afetos na cultura do macho” explica Isabel Marques. Este espetáculo foi contemplado pelo Prêmio FUNARTE de Dança Klauss Vianna 2013.
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